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Os Garotos da Minha Vida, Beverly Donofrio

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Em 2001, o drama Os Garotos da Minha Vida chegou aos cinemas, trazendo Drew Barrymore em uma das melhores atuações de sua carreira. A moça deu vida a Beverly Donofrio, uma adolescente americana que, em plena década de 60, descobriu estar grávida e teve que se adaptar às mudanças que essa novidade trouxe para sua vida.

O filme, hoje, é exibido à exaustão nos Super Cines da vida. Inspirado num romance homônimo, escrito pela própria Beverly, ele é realmente gracinha demais, mas não faz jus à obra que o deu origem, muito mais abrangente e cheia de cores.

O primeiro motivo que justifica isso se refere à personalidade da própria protagonista: enquanto na película Beverly surge mais ingênua, a autora não esconde, nas páginas, alguns pontos não tão lisonjeiros sobre sua personalidade. Donofrio, quando jovem, era por vezes insolente e assumidamente imatura, e não tem vergonha alguma de apontar suas antigas falhas.

Além de expor essas peculiaridades de forma mais ampla, Beverly também conduz a narrativa escrita de “Os Garotos da Minha Vida” por caminhos que fogem somente do drama. Ela consegue nos prender à história com grandes doses de sarcasmo e uma acidez pouco presente nas telas. Sequências como aquelas onde retrata o relacionamento com seu pai autoritário ou o enlace com seu namorado fracassado são tão hilariantes que a gente até pensa que os problemas da moça nem são tantos assim, tamanha a espontaneidade com que ela descreve certas passagens.

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Mary Lambert – Heart On My Sleeve

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Caso você conheça o trabalho anterior de Mary Lambert, especialmente o EP Welcome To The Age of My Body, sabe que a moça nunca esteve preocupada em se afastar de si mesma para compor as suas canções.

Fazendo de sua imagem, de seus demônios e da sua sexualidade os seus temas – e as bandeiras que levanta -, Mary criava uma música confessional e poderosa. E, ao mesmo tempo em que tudo aquilo era a respeito da  sua vida, a moça conseguia mover o ouvinte de uma maneira que beirava a catarse pelo piano crescente, o sentimento presente na voz poderosa e as letras sem subterfúgios ou floreios – apesar de muito bem escritas.

Por tudo isso, o que se esperava de um debut de Mary Lambert era confissão. A mesma honestidade que a colocava em uma posição vulnerável, mas de alguém que, exatamente por admitir as suas fraquezas, soava como dona de si mesma.

Se você mantiver isso em mente, vai estranhar bastante o que encontrará em Heart In My Sleeve, disco lançado pela artista nesse ano. Pelo menos numa primeira audição, onde o trabalho parece mais orientado para as rádios e “menos Mary” do que se poderia esperar. Porque pelo balanço contido em algumas canções, bem como as participações (não tão) inusitadas, o compacto pode soar como uma “versão fabricada de Mary Lambert”; mas, se você se permitir ouvir de novo – e também se deixar ir além do som, porque boa parte do que importa está nas palavras – vai perceber que tudo aquilo que fascinava a respeito da cantora continua ali.

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Precisamos Falar Sobre o Kevin

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Há uns dias li alguém comentando em uma rede social que Precisamos Falar Sobre o Kevin era aquilo que o cinema sempre deveria ser.

A frase me acompanhou por um tempo até que consegui formular uma hipótese plausível para o pensamento da tal pessoa: o casamento entre linguagem cinematográfica e enredo é tão bem feito que, por vezes, os simbolismos adotados em determinadas partes do filme acabam por revelar aquilo que seu roteiro deixa suspenso.

Baseado no romance homônimo de Lionel Shriver, Precisamos Falar Sobre o Kevin conta, sob a perspectiva de Eva Khatchadourian (Tilda Swinton), a história de seu filho Kevin (Ezra Miller), um garoto de 16 anos, autor de uma chacina que vitimou sete alunos, uma professora e um servente do colégio em que estudava, num subúrbio de Nova York. A temática, extensivamente abordada no cinema por perspectivas diversas, funciona aqui como gatilho para a discussão de questões mais profundas e inquietantes. Kevin não narra apenas mais um pesadelo americano ou um massacre no estilo Columbine, mas antes constrói uma reflexão sobre a ambivalência de certas mulheres perante a maternidade e a responsabilidade que elas possuem na criação de um “monstro”.

Os problemas entre Kevin e Eva são expostos de forma fragmentária e desordenada, mais ou menos como opera a memória quando se tenta lembrar de uma seqüência de eventos traumáticos. E esse é um dos pontos em que o longa encontra sua força: não oferecendo respostas rápidas ou tentando traçar o perfil de um psicopata, Precisamos Falar Sobre o Kevin força o público a confrontar questões incômodas: seria a maldade um traço com o qual se nasce? Afinal, Kevin não esboçava emoções desde criança – fase da vida, supostamente, marcada pela inocência, a alegria e a compaixão. Percebemos, ao invés disso, uma capacidade absurda de manipulação e a tentativa de isolar a mãe em sua percepção, já que quando o pai se fazia presente, Kevin se portava como uma criança qualquer.

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Melanie Martinez – Dollhouse

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Quem se ligou na enxurrada de promos e trailers lançados pela produção de American Horror Story antes de Freakshow (a nova temporada) estrear, deve ter notado que um desses vídeos trazia uma musiquinha meio ingênua em sua trilha, que logo após a divulgação do material, passou a ser super procurada na Internet – e trouxe de volta a atenção para uma moça que já vinha despertando curiosidade há um tempo.

Trata-se de Carousel, canção autoral de Melanie Martinez, figura conhecida pra quem acompanhou a terceira temporada do The Voice US. A mocinha, que se consagrou como uma das candidatas mais marcantes do programa – mesmo não tendo levado o maior prêmio -, seguiu investindo em sua música de maneira independente após o término da atração e lançou há alguns meses o EP Dollhouse, entregando uma prévia consistente do seu trabalho original.

Se nas audições do The Voice, Melanie cativava com uma persona brincalhona e um visual que transitava entre o infantil e o estranho, parece que ela prezou por esse segundo aspecto no disquinho em questão. Até o uso da faixa supracitada em AHS se faz compreensível: com quatro faixas inéditas, Dollhouse traz algo de soturno que combina muito bem com a atmosfera do seriado.

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Rato, Luís Capucho

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Rato, do autor capixaba Luis Capucho, é um daqueles livros que você lê sem saber muito bem se está curtindo a coisa toda ou não. Pessoalmente, essa indecisão me acompanhou quase até sua última página: várias vezes tive a sensação de que meu tempo seria melhor gasto com outra obra e, pouco depois, me envolvi com a narrativa e quis avançar o máximo possível nela, interessado.

Desenvolvida em apenas 127 páginas, a história contada por Caputo poderia não resistir a tantos altos e baixos, mas ela possui virtudes maiores do que parece inicialmente – algumas delas, você poderá perceber apenas depois de concluir a leitura, quando a trama “maturar” em você.

O mote é bastante simples: todos os acontecimentos de Rato são narrados por um rapaz sem nome, que mora numa pensão (chamada por ele de “O Casarão”) junto à sua mãe e os diversos inquilinos que habitam seus quartos, todos homens. Nosso protagonista não trabalha, é introspectivo, alimenta desejos secretos por alguns dos rapazes e parece viver perdido em devaneios. Suas emoções tornam-se ainda mais conflitantes com a chegada de um novo morador, Plínio, e com a animosidade que passa a perceber em alguns dos antigos moradores.

De início, tudo é irritantemente (e creio, intencionalmente) repetitivo. O personagem principal apresenta o ambiente d’O Casarão, mostrando que o local é tão essencial para a trama quanto qualquer um dos que o habitam e aproveita para dissertar sobre sua própria personalidade. Não nos simpatizamos com ele de imediato: arrogante mesmo ao admitir seus muitos defeitos, o rapaz quer mudanças, mas não faz para que elas aconteçam.

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Top 5: As melhores Blind Auditions da 7ª temporada de The Voice US

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O The Voice ainda consegue manter a curiosidade dos telespectadores e se mostrar como o grande sucesso na revelação de novos talentos dos EUA – mesmo que, sete temporadas depois, o formato tenha se desgastado um pouco e o nível dos candidatos nem lembre o nível dos que apareceram no programa nas primeiras temporadas do reality show.

Com técnicos de alto nível e sucesso no mundo musical, o programa que vem servindo de vitrine para calouros há cinco anos (dos quais nenhum conseguiu o estrelato, diga-se de passagem) destaca-se por não ter candidatos ruins: todo mundo que consegue uma audição, até quem não passa da primeira fase (as Blind Auditions) é, de alguma forma, bom.

E as Blinds, talvez, sejam até hoje a fase mais importante da competição. Elas são aquele momento do programa em que a gente se apaixona pelos candidatos. Porque tudo que eles querem é fazer uma cadeira virar (e nessa temporada, as cadeiras são ocupadas por Adam Levine, Blake Shelton, Pharrell Williams e Gwen Stefani). E aí eles soltam a voz, tentando controlar o nervosismo e torcendo pra fazer alguém se interessar pelo que eles apresentam, de modo que eles venham a fazer parte de um time.

Hoje começa nos EUA, a segunda fase do programa, os Battle Rounds, onde os técnicos colocarão os integrantes dos seus times para duelar entre si. E antes que a gente confira os calouros de digladiando, que tal conferir os melhores candidatos das Blind Auditions do programa como forma de aquecimento?  Pelo menos assim dá pra se lembrar do que teve de bom antes de ter que dar “tchau” para alguém de quem gostávamos…

Então, clica no ‘continue reading’ e bora ver esse Top 5: As melhores Blind Auditions da 7ª temporada do The Voice US.

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Por Escrito, Elvira Vigna

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Às vezes a gente sente liberdade mais de escrever do que falar. Porque é mais fácil, porque dá para se expressar melhor (?), porque dá para botar as palavras que pessoalmente talvez não sairiam… E aí escrevemos uma carta (ou um e-mail, mais modernamente) para o nosso alvo e “vomitamos” as coisas que estão presas, boas ou ruins.

Esse ato de “escrever para não falar”, talvez, seja a premissa básica de Por Escrito, último romance da jornalista, escritora e ilustradora carioca Elvira Vigna. Nesse livro da premiada romancista, nos deparamos com uma correspondência de Valderez para seu namorado, dizendo coisas que ela não conseguiria falar pessoalmente.

Logo no começo, descobrimos que Valderez é uma mulher que está largando um emprego de anos, o qual é estável e rentável, para viver com seu grande amor. As viagens, uma constante na vida profissional da protagonista (que, às vezes, se chama de Izildinha), foram a cansando ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que se intercalavam às perdas da sua vida, fossem estas físicas ou afetivas. E é nesse ponto de mudança, que Valderez escreve a carta e se debruça sobre sua história, sobre o que a levou até aquele ponto.

E se a primeira impressão de quem topa com o livro (ou pra quem lê essa descrição acima) pode parecer piegas e até inocente, as páginas de Por Escrito colocam isso por terra. Tudo porque a prosa utilizada por Elvira nas descrições e falas da protagonista, dão um tom melancólico e altamente confessional à narrativa. E é nessa prosa que encontra-se o trunfo de Por Escrito: o tom que a autora utiliza para dar vida às reminiscências de Valderez, funciona como se pensamentos estivessem sendo jogados ao papel (ou em um computador), de forma pouco ordenada, ora indo na sua infância, ora voltando para o presente de largar viagens, ora contando como algo ocorreu, ora divagando sobre o todo, o que por vezes, pode parecer como se cozido em banho-maria.

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Break The Cycle, You+Me

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Um belo dia, P!nk e Dallas Green (da banda City and Colour) resolveram se unir em um projeto, o You+Me, que seguia rumos um pouco diferentes do que ambos haviam feito até ali especialmente pelo tom sensível das canções.

E se as diferenças entre os trabalhos individuais dos artistas e os seus registros enquanto dupla já ficavam claras na primeira música liberada, You+Me, em Break The Cycle, a nossa Música do Dia dessa sexta, não tem mesmo como negar que os rumos da banda são completamente diferentes do que poderia se esperar.

Segundo a própria P!nk, Break… foi escrita para a sua mãe e fala sobre o relacionamento das duas. E apesar de a carga emocional saltar aos olhos (ou ouvidos) de quem escuta, rendendo um resultado bonito que dá conta de traduzir bastante bem o amor, a cantora não se mostrou completamente satisfeita com o resultado – mas, em contrapartida, disse que os versos da faixa eram bastante honestos e comunicavam aquilo que ela desejava.

Como músicos, às vezes, podem ser duros demais com o seu próprio trabalho, nós, do Outra Página, queríamos dizer para vocês não escutarem uma palavra do que P!nk disse a respeito de Break The Cycle porque o resultado é, sim, incrível.

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A Pele de Vênus

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Em O Deus da Carnificina (Carnage, 2012), Roman Polanski já havia mostrado (ou reafirmado) que não precisa de muitos artifícios para fazer um bom filme. Alguns atores competentes, um texto bem escrito e um único cenário bastam para que o diretor seja capaz de construir tensão, conseguir o efeito cômico desejado e demonstrar que o clichê nunca foi tão verdadeiro quanto em “de perto, ninguém é normal”.

A Pele de Vênus (La Vénus à la fourrure, 2013), o seu último longa, reprisa alguns dos efeitos de O Deus da Carnificina, mas potencializa as sensações causadas por seu antecessor pelos temas que aborda e por uma série de questões técnicas, que parecem aperfeiçoadas e amadurecidas no que tange a soar provocativo, intrigante e manter o público hipnotizado.

Porque se, num primeiro momento, era complicado desviar os olhos da histeria de Jodie Foster e do cinismo de Christoph Waltz,  em A Pele de Vênus a tarefa de prender a nossa atenção fica toda nas mãos de Emmanuelle Seigner, a interprete de Vanda, personagem responsável dar a trama aquele ar de ruminação lúdica-mais-séria da obra de Sarcher-Masoch, A Vênus das Peles; bem como por instaurar a atmosfera de jogos sexuais baseados em interpretações de papéis. E a atriz, segura de seus atributos e capacidades, desenvolve tão bem a sua personagem que mesmo que Mathieu Amalric, o seu companheiro de cena, entregue um desempenho igualmente forte, ELA é o motor do filme, o seu charme e boa parte daquilo que permanece vivo em quem o assiste depois que sobem os créditos.

Além disso, a maneira como a câmera passeia pelo “palco”, quase sempre se assemelhando aos olhos atentos de alguém que está assistindo a ação in loco, ajudam na sensação de imersão: é impossível perder uma palavra, desviar os olhos por um segundo ou mesmo fazer uma pausa para respirar porque, caso você faça isso, pode perder a próxima virada de jogo, o próximo ataque certeiro, já que as coisas acontecem tão rápido – apesar de nunca parecerem apressadas e sim dotadas de um timing invejável – que, mal nos acostumamos a uma situação, A Pele de Vênus já está perseguindo outro rumo e discutindo outros temas.

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Tony Bennett & Lady GaGa – Cheek To Cheek

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Uma dança a dois, envolvente de verdade, é aquela em que ambos os participantes têm o mesmo destaque: alternam a condução e conseguem brilhar não só como dupla, mas também separados. Cheek to Cheek, o disco de duetos de Tony Bennett e Lady Gaga, gera no ouvinte o efeito de acompanhar um duo competente se movendo por um salão, interagindo com grande química, brilhando por igual e conquistando não apenas um ao outro, mas também a plateia por consequência.

Inteiramente focado no jazz – gênero que Tony já conhece pra lá de bem e no qual Gaga parecia estar só esperando a chance ideal pra poder “brincar” -, o CD é caprichado demais. Lindamente orquestrado, com belas interpretações da dupla – a cantora, por sinal, comprova que manda bem em praticamente tudo em que se arrisca, até em um gênero mais “adulto” -, traz aquela atmosfera meio mágica e romântica de um filme antigo de Hollywood, vinda direto dos anos 20.

Embora regravar standards da música pareça ser a coisa mais “zona do conforto” do mundo, Bennett e LG mostram que a ousadia da coisa toda está em “levar a coreografia” de forma bem desprendida, sem exagerar na sisudez, mas sem parecer que aquilo é apenas uma jam de amigos. Nesse tom ideal, transparece um diálogo entre duas gerações que é muito bonito de se ver e a ideia de que eles estão nesse projeto, principalmente, por amor e admiração à música e a parceria.

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Cartas de Amor aos Mortos, Ava Dellaira

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Em linhas gerais, Cartas de Amor aos Mortos conta a história de Laurel, uma garota que está começando o Ensino Médio e decide se mudar de escola para não ter que lidar com os últimos acontecimentos de sua vida, como a morte de sua irmã, May.

Em sua nova escola, enquanto tenta se encaixar e lida com dilemas típicos de sua idade – como, por exemplo, o primeiro amor, que se materializa na forma de Sky, um garoto misterioso -, ela recebe de sua professora de inglês a tarefa de escrever uma carta para alguém que já tenha morrido, falando a respeito de si mesma e das suas inquietações. Então, a garota se dirige a diversos famosos que, em algum ponto, marcaram a sua vida, e disseca os seus sentimentos, o trauma recente e banalidades do cotidiano de qualquer jovem. Tudo isso sem nunca entregar o trabalho.

Se o plot parece promissor e a ideia de se comunicar com desconhecidos, usando as vidas deles para falar a respeito de si mesmo, soa como algo intrigante, o desenvolvimento de Cartas de Amor aos Mortos não enche tanto assim os olhos e, na verdade, acaba passando como uma versão um pouco menos interessante de outros romances voltados para o público adolescente, especialmente As Vantagens de Ser Invisível.

E essa semelhança vai além das interseções que a história de Laurel encontra com a de Charlie, como o trauma sofrido em algum ponto da vida ou a dificuldade para fazer amigos, e perpassa também temáticas relacionadas a sexualidade e as inseguranças. Encontrando uma maneira de narrar muito semelhante àquela utilizada por Stephen Chbosky, Ava Dellaira, a autora do livro, por vezes, nos dá a impressão de estar prestando uma homenagem mais do que tentando contar uma história inédita.

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They Came Together

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Sabe aquela comédia romântica clássica e bonitinha, onde o mocinho conhece a mocinha, em uma situação inesperada, e eles se odeiam porque a situação citada, geralmente, é constrangedora ou ruim para uma das partes? E, então, eles carregam esse ódio por um tempo até que, magicamente, descobrem que estão apaixonados e são o amor um da vida do outro? Pois é: esse é o motivo pelo qual They Came Together (They Came Together, 2014) existe.

O filme veio para mostrar, usando uma zuera sem limites, o quanto esse plot – presente no cinema americano desde que o mundo é mundo – já está batido, apesar de ainda agradar milhares de pessoas ao longo dos anos. E também um pouco do ridículo no fato de que essa fórmula sempre funciona.

Porque, vejam bem, quem nunca chorou (ou quase) com uma comédia água com açúcar em um dia ruim, depois do término de um namoro ou em alguma situação que a vida pedia um pote de sorvete e umas lágrimas? Eu duvido muito que alguém não tenha passado por isso. E, sendo assim, a ideia por traz de They Came Together se torna genial – e a sua execução também é boa, mas poderia ter sido melhor em alguns momentos, nos quais faltaram umas alfinetadas mais pontuais – exatamente por te fazer rir descontroladamente daquilo que, em outro momento (bem tosco) da sua vida te fazia chorar loucamente.

As boas escolhas presentes no longa podem ser vistas ainda no seu pôster. Um exemplo disso é o par romântico que vai servir para desenrolar toda a história e te deixar constrangido, rindo de nervoso, durante o filme: Amy Poehler e Paul Rudd, que dão vida a Joel e Molly, o casal que não funcionaria de maneira alguma porque os seus interesses divergem, visto que Molly é dona de uma loja de doces, que está sobrevivendo a duras pernas devido a sua rivalidade com um verdadeiro império do ramo, para o qual Joel trabalha – e é designado para conseguir comprar, vejam bem, justamente a lojinha de Molly. E aí, enquanto ele é um capitalista selvagem que só está interessado no dinheiro, ela permanece irredutível na sua decisão de não vender o seu comércio porque valoriza o que construiu.

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Caminhos – Eduardo Damasceno, Luis Felipe Garrocho

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Qualquer coisa que tiver cachorro no meio, chama a minha atenção. Sou do tipo que para pra ver até powerpoint meloso de titia se tiver um cãozinho por lá, e que chora no trabalho (não me julgue, pfvr) ao ler certas reportagens que os envolvem.

Então, dá pra imaginar minha empolgação quando, sem nem saber da existência, me deparei com a HQ Caminhos, de Eduardo Damasceno e Luis Felipe Garrocho numa livraria. A empolgação foi potencializada pela linda capa, que traz o célebre Bidu com visual atualizado e um olhar mega desolado. Conexões mentais fizeram com que eu o associasse ao meu próprio cachorro e meu coração tropeçou e teve fratura exposta: me apaixonei na hora e corri pra ler a contracapa.

A HQ, que marca o retorno do arco Mônica 50 Anos (projeto que convida novos autores a comemorarem os meio século de existência da personagem mais icônica do quadrinho nacional, a partir de reinvenções de personagens e tramas criados por Mauricio de Souza) prometia contar tudo o que havia acontecido a Bidu antes de conhecer seu dono, o Franjinha, incluindo diversos percalços e dificuldades.

A abordagem pareceu interessante. Até porque, particularmente, Bidu nunca havia me empolgado demais. Nunca achei suas histórias especialmente ternas ou aventurescas como as de outros personagens de Maurício. Mas, nesse caso, a coisa mudou. Caminhos é uma graça: cheia de elementos pra lá de fofos, a obra bastaria só por isso, mesmo se ficasse devendo em emoção ou traquinagens. Dá pra enumerar vários: os traços leves da dupla e a forma como tudo é super colorido, mas nunca agressivo aos olhos; a maneira com que os personagens aparecem (até mesmo a Pedra, constante coadjuvante de Bidu, dá as caras) e a aparência que deram a eles – diferente mas sem nunca descaracterizá-los; a narrativa em off, que dá voz ao próprio Bidu de forma despojada; os balões de diálogo que, ao invés de frases e onomatopeias, trazem pequenos desenhos de situações dentro deles, etc.

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God Help The Girl – God Help The Girl (OST)

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Belle & Sebastian é uma banda que, de certa forma, tem um tom coming of age. Ao ouvir as canções deles, é possível que você se sinta, novamente, com um uniforme escolar, voltando para casa no horário de almoço, enquanto Stuart Murdoch canta nos seus fones de ouvido, criando histórias bastante pontuais, mas que, de certa forma, provocam identificação em qualquer um.

E a doçura das músicas dos caras, que flutua em meio as suas letras melancólicas, é capaz de definir o início da vida adulta com precisão. Especialmente porque adolescentes/jovens adultos estão procurando por uma maneira de encontrar a sua identidade e aquelas visões de mundo, um tanto pessimistas, mas disfarçadas por algo ensolarado, acabam funcionando bem nesse sentido.

Por essa característica de quase cronista que Murdoch ostenta (e tem sustentado bem ao longo dos anos), é fácil criar imagens para suas letras. É possível imaginar mocinhas de vestidos de bolinha escrevendo histórias sobre o “príncipe encantado” enquanto fogem da realidade.

E foi exatamente pensando no quanto as suas letras têm de visual que o sujeito, lá em 2009, deu início a um projeto ambicioso: God Help The Girl, uma espécie de “banda” paralela ao B&S, da qual ele compunha todas as faixas – ainda contando com uma cara inegavelmente folk e pop, vale destacar – que integrariam, posteriormente, um musical baseado nessas composições.

O resultado final, tanto em termos de OST quanto tem termos de cinematográficos, só viu a luz do dia esse ano – o que, de certa forma, foi benéfico e deu a Murdoch tempo para criar algo bom o bastante para agradar os seus fãs antigos, mas que também consegue se sustentar independentemente da fama do Belle & Sebastian.

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