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10 Fatos Sobre: Tal Mãe, Tal Filha

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Exibida em nas manhãs de domingo pelo SBT no começo dos anos 2000 com o título de Tal Mãe, Tal Filha, o seriado Gilmore Girls conquistou o coração de milhares de espectadores ao mostrar de um jeito bastante singelo e leve o cotidiano de Rory e Lorelai, suas protagonistas.

No enredo, Lorelai (Lauren Graham) era uma mulher de trinta e poucos anos que depois de ter ficado grávida na adolescência deixou sua família rica para trás para poder criar sua filha do jeito que quisesse. Mas o mundo dá voltas e voltas e, num desses acasos, ela precisa reatar a relação com os pais para que eles banquem a educação de sua filha.

Diferentemente de outros programas em que coisas acontecem a todo o momento e as situações se desdobram com viradas inesperadas, Tal Mãe, Tal Filha manteve o mesmo tom durante quase todas as suas sete temporadas. Havia, sim, eventos marcantes (como formatura, encontro com pessoas do passado, e realizações de sonhos), mas eles estavam longe de ser o foco: o que acendia o interesse eram as personagens muito bem desenhadas e divertidas.

Encontrando beleza no prosaico e tendo como cenário Stars Hollow, uma cidade que parecia ter saído de um sonho, Tal Mãe, Tal Filha destilava diálogos rápidos, debochados e certeiros cheios de referências à cultura pop. E se Lorelai e Rory hipnotizavam e provocavam risos com suas conversas mais banais, elas emocionavam quando falavam sério: a ternura quase nunca parecia brega, e o afeto saltava aos olhos mesmo quando havia brigas e discussões.

Hoje, sete anos depois de seu encerramento, o programa deixou saudades. E também histórias curiosas acerca de seu nascimento e produção. E é isso que a gente vê nos 10 Fatos Sobre: Tal Mãe, Tal Filha.

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Aretha Franklin – Aretha Franklin Sings The Great Divas Classics

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Existem algumas fórmulas um tanto quanto prontas para que um artista com anos de carreira se mostre ainda produtivo e criativo após tanto tempo. Alguns gravam outros cantores igualmente importantes no cenário musical de determinada localidade. Outros regravam suas músicas mais importantes, sabendo que sua voz não é mais a mesma. E há também aqueles que prestam homenagens a outros cantores, para ficar só em três exemplos de fórmula.

É nesse terceiro cenário que Aretha Franklin se enquadrou para lançar seu último álbum, Aretha Franklin Sing The Great Divas Classics, o primeiro dentro de uma grande gravadora, depois de 11 anos lançando seus álbuns pelo seu próprio selo. e também o primeiro a contar com produtores importantes, como Baby Face e André 3000. Fazendo um apanhado de músicas relevantes para o cenário da soul music e do R&B ao longo do tempo, aquela que é, talvez, a última grande diva viva, abraça suas afilhadas e companheiras e homenageia cantoras que, junto com ela, ajudaram a promover os ritmos supracitados.

Ao ouvir a primeira canção do disco, uma versão da rainha do soul para At Last, maior sucesso de sua contemporânea Etta James, os mais desavisados – e acostumados com o vozeirão de Aretha nos anos 60 e 70 – podem se assustar com o desempenho dela. Tudo porque, apesar de entregar um cover emocionante para a faixa, a cantora soa mais debilitada e um pouco mais fraca do que em seu último registro e do que outros tempos (e é bom lembrar que Franklin enfrentou um câncer de pâncreas nos últimos anos, tendo que cancelar diversas apresentações).

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Wish I Was Here

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Dez anos depois de seu debut, Hora de Voltar (Garden State, 2004), Zach  Braff retorna às telas com Wish I Was Here (Wish  I Was Here, 2014), longa que apesar de não funcionar como uma sequência de Garden  State, se apropria dos mesmos elementos e estabelece uma conexão narrativa que pode até ser involuntária, mas é bastante notável.

Em ambos os filmes, Braff interpreta um ator lutando com uma espécie de dilema existencial. Nos dois casos sua mãe está morta; ele precisa lidar com um pai que desaprova as suas escolhas; e tem como tábua de salvação o amor de uma mulher, que é incrivelmente solidária e parece existir somente para tornar a vida dele mais fácil – mesmo que as suas questões sejam mais profundas e complexas do que aquelas vivenciadas pelo personagem de Zach. Além disso, o uso da trilha sonora, cheia de indie rock, que cobre o filme com uma espécie de nostalgia instantânea, também está presente em Wish I Was Here e é utilizada de maneira análoga, visando reprisar efeitos conseguidos em Garden State.

Caso você esteja se perguntando qual é, então, a grande diferença entre os dois projetos, ela fica a cargo do envelhecimento do aspirante a ator em questão: se, antes, ele tinha vinte e poucos, agora, ele é casado, tem filhos e responsabilidades – que ele deixa nas mãos da esposa enquanto persegue o seu sonho. E, se em Hora de Voltar o pai do cara estava bem, obrigada, em Wish I Was Here a morte paira sob o sujeito.

Por isso, a sensação que fica desde o começo do filme é que Zach Braff pegou a mesma “casa”, redecorou-a com alguns objetos mais adultos e tentou dar a ela uma cara reflexiva, onde os dilemas vão além da busca por aprovação.

Não é que as questões com que Braff lida em Wish I Was Here sejam imaginárias ou frívolas. Elas são reais e, por vezes, bastante duras. E o desejo do diretor parece ser tentar retratá-las de uma maneira honesta e coerente com a idade do protagonista. Mas é tudo tão confuso, e as soluções encontradas pelos personagens são tão ridiculamente limpas e bem arrumadas que soam artificiais pelo seu tom forçadamente positivo – para o qual, em algumas das sequências, simplesmente não há espaço.

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Cyndi Lauper – Bring Ya To The Brink

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Ainda que os trabalhos de Cyndi Lauper não gerem tanta comoção hoje quanto já fizeram um dia, não quer dizer que a loira não entregue coisas bem interessantes vez ou outra.

Aliás, é quase engraçado pensar que a mesma artista que aparece com dois discos de covers na sequência também se aventura por um território que não é bem o seu, como o blues de seu último disco, Memphis Blues. Ou que nos anos 00 – em 2008, pra ser mais exato -, no meio de tantas novas “divas” pop efervescentes, tenta atualizar seu som com um CD bem simpático, convidativo, e que resgata bem quem ela é.

O trabalho em questão é Bring Ya To The Brink, que marcou o retorno de Cyndi para a dance music depois de alguns anos apostando em um som mais despido de tanta “bateção”. Se renovando sem abrir mão do passado, a moça uniu-se a produtores populares e/ ou novatos – como os caras do Basement Jaxx e a banda Dragonette – para fazer um compilado de canções despretensiosas e que parecia ter a intenção principal de, claro, fazer geral dançar. E que sugeriam que ela não estava “sem gás”, como alguns poderiam pensar.

O encarte do disco, aliás, parece até ter feito piada disso, com fotos de Cyndi como uma dona de casa que decide tirar o “globo de discoteca” do porão. Mesmo que as faixas de Bring Ya… não tivessem força suficiente para bater de frente com os hits mega produzidos/grudentos da época (Don’t Stop The Music! Hot’n Cold! Bleeding Love! Socorro!), elas comprovaram que a artista ainda tinha/tem o que mostrar, ainda mais na área em que se sente à vontade.

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3×4: Marj Satrapi

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Nome: Marjani Satrapi (Marjane Ebihamis)
Idade: o livro e o filme a acompanha da infância à vida adulta
Apareceu em: Persépolis

O motivo pelo qual a homenageada do 3×4 de hoje é Marjane Satrapi é bem simples: ela é uma personagem (real) mais do que sensacional e que transmite para o mundo muito daquilo que nós, às vezes, queríamos poder transmitir, mas não fazemos por não termos a essência corajosa dela.

E essa coragem se mostra desde o início da trajetória de Marj. Ainda pequena, vemos a garotinha questionando coisas como o uso de véu no Teerã e porque ela não poderia ouvir a música que quisesse, frequentar os lugares que quisesse e se vestir da maneira que achasse adequada. Esses questionamentos de Marj foram aquilo que a levaram a ir além em todo o seu percurso e, possivelmente, libertaram muitas meninas na mesma situação da garota.

Inserida num ambiente onde o simples fato de desejar uma educação, basicamente, contrariava aquilo que era imposto pelo governo do país em que vivia, Marj passou toda a sua infância escutando a respeito da resistência e se sentindo intrigada por isso.

A curiosidade da garota pela política, quando somada ao fato de que os seus pais eram tão incríveis quanto ela (sério: você lê desejando que esses fossem os seus pais) e reforçaram os traços interessantes da garotinha, fizeram com que grande parte do que Marjane se tornou no futuro tivesse ligação direta com aquilo que vivenciou em sua própria casa.

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Ana Cañas – Hein?

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Quando Ana Cañas surgiu para o grande público em 2007, com o disco Amor e Caos, ela apareceu com uma pompa e uma certa arrogância juvenil que não parecia caber naqueles dias. Num cenário em que contestavam o papel das gravadoras no lançamento de artistas e álbuns, Ana foi “descoberta” e espalharam aos quatro ventos que a mocinha só assinou com a Sony um contrato de – pasme!- cinco discos porque lhe garantiram liberdade artística total.

Com investimento, liberdade, uma boa voz e bastante talento, a garota, que costumava ser atriz, se firmou como uma das vozes mais interessantes da música brasileira e logo se tornou conhecida. Aproveitando os bons frutos de seu debut e a tal liberdade de fazer o que quisesse, ela ousou. E a ousadia atendeu pelo nome de Hein?.

Mais próximo do que Cañas era do palco do que o primeiro disco jamais foi, Hein? era um disco com claras influências do bom e velho rock’n’roll: compassado e marcado por guitarras, uma bateria (quase) onipresente, um baixo bem expressivo, refrões deliciosos, e muito deboche. Nele, Ana parecia uma fonte inesgotável de energia e força.

Com uma produção que polia o material sem higieniza-lo (por trás do disco estava Liminha, um dos maiores produtores do efervescente cenário do rock brasileiro dos anos oitenta), Hein? foi coeso e redondo, superando, em muitos aspectos, o primeiro disco da cantora.

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3 Momentos: Mélanie Laurent

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Primeiramente, o óbvio: Mélanie Laurent é bonita. Muito, muito, muito bonita. E tem uma presença cênica tão forte que a vontade que dá quando se assiste a um filme estrelado por ela é de não piscar para não perder nada.

A elegância natural combinada ao jeito de menina melancólica – que ri com a boca inteira aberta, mas quando não estão olhando revela um olhar meio triste, tornam Mélanie uma figura interessante. Com seu rosto ela atrai e aproxima. E essa aproximação, ao contrário da beleza, não é tão óbvia. Porque embora o que chame a atenção num primeiro momento seja a aparência, Mélanie não depende muito dela para que continuemos olhando. Ela é interessante por ser expressiva, por parecer que esconde algum tipo de segredo. E essa aura de mistério é o que faz de Mélanie magnética.

Filha de artistas (a mãe era professora de balé, e o pai cantor), trilhar as carreiras que escolheu (além de atriz a moça é cantora e diretora) parecia inevitável. O que a garota precisava era uma chance de ser vista. E só.

Ao contrário do que muita gente pensa, quem descobriu Mélanie Laurent não foi Quentin Tarantino, mas sim Gérard Depardieu. Ele a conheceu quando a moça, com dezesseis anos – hoje ela tem trinta e um -, estava nos bastidores a assistir as filmagens de Astérix e Obélix contra César (Astérix et Obélix contre César, 1999). Impressionado com o rosto enigmático, Depardieu a convidou para participar de seu próximo projeto. Ela topou e uma semana depois estava filmando.

E aí ela não parou. Foi filme atrás de filme – com direito a prêmio importante (antes mesmo de ficar conhecida globalmente por um certo filme de um certo diretor, Mélanie venceu o César de Atriz Mais Promissora) e, no meio do percurso, lançou até um disco.

Hoje seu nome é conhecido na França e não só na França. Escolhendo as obras certas – seja em Hollywood, ou em seu país de origem -, a atriz reafirma seu talento a cada novo trabalho e mostra que não tem medo de arriscar para compor sua arte.

E também que não precisava ser protagonista para brilhar.

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Kiki de Montparnasse, José-Louis Bocquet e Catel Muller

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Se fazer uma biografia parece bastante complicado – já que demanda extensa pesquisa sobre a vida da pessoa que o autor retrata e, de preferência, certa imparcialidade para narrar os fatos – imagina como deve ser fazer uma biografia EM QUADRINHOS, que exige, além disso tudo, uma compreensão ainda maior não só de tudo o que a pessoa viveu, mas de sua personalidade e suas características, já que o retratado terá voz ativa na trama?

Kiki de Montparnasse é exemplo de obra que teve êxito em tudo isso. A graphic novel, escrita por José-Louis Bocquet e ilustrada por Catel Muller, conta a história de Alice Prin, mais conhecida como Kiki, uma artista que agitou o cenário cultural de Paris durante a década de 20.

Enfrentando uma infância pobre e driblando problemas familiares e a hostilidade de parentes e vizinhos, a moça acaba indo parar em Paris ainda jovem, torna-se modelo de nu artístico e após percorrer uma fase um tanto nômade, conhece artistas importantes do lugar e descobre suas próprias habilidades artísticas, como a música e a pintura. Assim, trilha uma trajetória impressionante e desimpedida ao topo enquanto luta com certos traumas, vícios e amores errantes.

A pesquisa de Bocquet para escrever a saga de Kiki se justifica não apenas na extensa bibliografia que consta ao final da edição, mas também no andamento da história. Porque Kiki de Montparnasse é tão bem narrada e divididinha que passa aquela impressão que não há nada fora do lugar.

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Cena: Halloween – A Noite do Terror

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Talvez você não tenha assistido, mas du-vi-do que não conheça o antagonista de Halloween – A Noite do Terror (Halloween, 1978). Isso porque o filme dirigido por John Carpenter foi tão intenso e acessível que jogou Michael Myers, seu vilão, nas entranhas da cultura pop – a ponto de, não raro, mais de trinta anos depois, a fantasia do homem que veste máscara e usa uma faca continuar sendo umas das mais requisitadas.

Inaugurando alguns dos clichês que mais seriam reprisados nos anos seguintes, Halloween – A Noite do Terror seguia uma fórmula bastante esquemática, mas o vigor de seu realizador e a diversão genuína impressa nos frames o destacava e o distanciava de seus pares.

O melhor exemplo do tanto que esse filme é bom talvez seja justamente sua sequência inicial. Filmada para ser a visão de alguém em primeira pessoa, o longa deixa claro suas intenções ao instaurar, dessa forma tão diferente, a atmosfera de perigo eminente. Pelos olhos de alguém que não sabemos quem é, observamos pela janela de uma casa suburbana e comum dois jovens se pegando.

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Pato Fu – Não Pare Pra Pensar

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O décimo disco de estúdio do Pato Fu, uma das bandas brasileiras mais expressivas surgida nos anos 90, chama Não Pare Pra Pensar. A frase escrita assim no imperativo parece um desafio sacana ou uma daquelas regras que a gente quebra pelo prazer de quebrar. Isso porque pensar sobre o disco e o significado dele é algo (quase) inevitável.

Soando mais Pato Fu do que nunca, cada faixa de Não Pare Pra Pensar parece referenciar, reverenciar e exponenciar uma fase da banda, seja por evidenciar riffs e bases viciantes ou por colocar em primeiro plano letras tão bem construídas que parecem crônicas com múltiplos sentidos.

Essa sensação de que o grupo parece procurar recuperar a “identidade perdida” (e uso aspas aqui porque embora o Música de Brinquedo, penúltimo disco da banda, tenha sido composto por regravações a produção não deixava dúvidas que se tratava de Pato Fu) se firma em Cego Para As Cores, a primeira faixa, e se solidifica a cada música por motivos diversos, sendo o mais óbvio o próprio som.

As guitarras, que foram meio que deixadas de lado desde Daqui Pro Futuro, de 2007, reaparecem com o fôlego que a banda tinha nos primeiros álbuns da carreira e combinadas a uma bateria esperta e menos pesada ditam o tom da música e do disco. E a coisa só melhora.

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Boyhood: Da Infância à Juventude

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O amadurecimento é um dos temas mais recorrentes no cinema mundial e já foi capturado por óticas diversas: do naturalismo de Frances Ha (Frances Ha, 2012) à “exploração” de Kids (Kids, 1995).

E exatamente por permitir tantas aproximações distintas, algumas vezes situadas em extremos, o crescimento se mostra um terreno rico por representar uma espécie de expressão da liberdade individual, baseada em tentativa e erro, e raramente pautada em fórmulas ou soluções prontas.

Então, mesmo que você possa ter a impressão de que tudo o que havia para ser dito sobre crescer já foi dito – e há quem fale que ainda na década de 1980, por um certo John Hughes -, Boyhood – Da Infância a Juventude (Boyhood, 2014), o novo filme de Richard Linklater, lança um novo olhar acerca de temas já conhecidos do público e dá conta de afastar toda e qualquer sensação de dejà vú provocada por sua sinopse – que pode ser resumida em acompanhar trajetória de Mason (Ellar Coltrane) e sua família durante um período de tempo.

Filmando os mesmos atores por doze anos, Linklater não nos dá a impressão de ter planejado para onde a sua história iria quando o seu protagonista ainda era uma criança, de modo que não vemos um arco narrativo que permite pensar em começo, meio e fim. Mais interessado em captar o movimento que o próprio cotidiano tem, o diretor dá ao seu filme uma cara espontânea: não existem “frases de efeito” ou reviravoltas surpreendentes.

Boyhood se desenvolve num ritmo que não cria qualquer cena no formato “fazer público prender a respiração e, finalmente, compreender a “mensagem pretendida””. Não há ali a intenção de catarse, comum a projetos com características semelhantes, para levar o espectador ao entendimento da personalidade dos personagens e dos momentos que fizeram com que eles fossem como são.

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Laertevisão – Coisas Que Não Esqueci, Laerte

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Eu tenho uma certa adoração por fotos antigas, cartas e notas escritas à mão, qualquer coisa com aquela cara de “morei no guarda roupa ou na gaveta por anos até você me resgatar”. Pela intimidade que essas coisas sugerem, pelas memórias atreladas, e pelas emoções que as permeiam em principal.

Laertevisão – Coisas Que Não Esqueci, livro da cartunista Laerte, é um exemplo de como essas coisas nunca falham em envolver – mesmo quando a gente pouco conhece sobre as pessoas retratadas.

Cheia desse tipo de material – além de recortes de jornais e revistas dos anos 60 e 70 -, a obra reconstrói os primeiros anos do artista através de reproduções de seu acervo e, claro, através de suas tiras inconfundíveis. A mistura entre as duas coisas, aliás, parece elevar ainda mais o valor dos desenhos e textos de Laerte, como se eles mesmos tivessem o peso de uma fotografia de família, ou uma carta escrita entre irmãos, tamanha a precisão com que ele pincela passagens de sua infância e adolescência.

A visão que Laerte adota para dar voz ao seu “eu pequeno” (ou não tão pequeno assim em algumas situações) é meio ingênua, bastante non-sense e curiosa – ou seja, a cara da infância. Com ternura, ele descreve diversas memórias dessa fase: as traquinagens entre amigos, as características marcantes de certos parentes – como a força e vigor de sua mãe -, a adoração à ícones pop e tardes gastas mansamente em frente à TV, que tem papel importante no desenrolar da cronologia.

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Top 5: Filmes sobre o american-way-of-life

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… Há essa musiquinha, muito da bonitinha, que foi lançada em 1962 e que gente de toda estirpe já fez cover. Ela diz assim “little boxes on the hillside/ little boxes all the same (…)/ and the people in the houses/ all went to the university/ where they were put in boxes/ and they came out all the same“.

É curioso pensar que o desgaste do sonho americano começou décadas atrás – talvez em paralelo a seu nascimento. Embora os livros e filmes (inclusive alguns bem recentes) forcem o mundo inteiro a acreditar que basta trabalhar para se conquistar o sucesso e a felicidade (e a felicidade aqui é ter e parecer), a verdade verdadeira é que as coisas não são bem assim.

Essa felicidade de plástico estampada nas comédias românticas ou em dramas que se escondem sob o escudo do “baseados em fatos reais” (que mostram exceções e não regras) parece quebrar quando a gente pensa nas notícias ou mesmo olhamos para a vida ao redor.

O sonho americano não existe. E a ausência dele traz, além de tristeza, tipos interessantes (como não lembrar de um certo personagem que alertou uma geração inteira de que eles não eram seus empregos ou o carro que dirigiam?), massacres, insatisfação crônica e obras de arte instigantes, que ora parecem sátiras, ora parecem espelhos.

E é sobre esse último item que a gente fala hoje em nosso Top 5: Filmes sobre o American-Way-Of-Life.

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Pharrell Williams – G I R L

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Sem dúvidas, 2013 foi o ano de Pharrell.

Embora o cara esteja presente nas paradas de sucesso há, pelo menos, uma década, compondo batidas viciantes e músicas arrasa-quarteirões para todos os artistas imagináveis (de Snoop Dogg e Jay-Z a Justin Timberlake e Britney Spears), só no ano passado ele, finalmente, passou a ser visto para além dos bastidores e do seu trabalho enquanto produtor.

Assumindo o centro dos palcos ao emprestar a sua voz a dois dos maiores hits de 2013, Get Lucky, do Daft Punk, e Blurred Lines, do Robin Thicke, e tomando para si uma canção indicada ao Oscar (!), por Happy, Pharrell parecia querer mostrar que o pop não precisava ficar tão arrogante e sério quanto ele soava num ano em que um dos maiores hits falava sobre não ser parte da realeza, com um tom muito pé no chão e um instrumental pouco colorido.

Tudo isso porque o cantor aparecia por aí usando um chapéu que se parecia com um cometa, tênis extravagantes e nunca, nunca agia como se ele fosse a última Coca-Cola no deserto do Saara (embora ele, de vez em quando, seja mesmo). E porque, apesar de ridiculamente consistente em papéis de apoio – e, aqui, vale lembrar tudo o que o cara fez no N*E*R*D e no The Neptunes – ele ainda precisava provar que havia ali uma estrela. Alguém com potencial para exercer a mesma dominação massiva que as faixas compostas por ele. E G I R L, o seu segundo disco solo, foi o veículo encontrado para mostrar isso.

Entregando um álbum bastante simples e sem a intenção de soar como algo inovador, Pharrell parece passear – bastante à vontade – por aquilo que ele vinha fazendo para outros artistas, de forma que entrega um registro com uma cara familiar, mas contagiante de um modo que é bastante Pharrell Williams por conservar a atmosfera festiva e vibrante estabelecida com Happy.

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