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Jenny Lewis – The Voyager

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Se você já mudou de cidade e passou um tempo significativo sem visitar o seu lugar de origem, com certeza, experienciou algum desconforto ao retornar.

Surgem prédios novos, lojas novas, as avenidas parecem se alargar ou se estreitar… Aquela paisagem, antes tão sua, que poderia ser descrita com precisão, sem o menor esforço, por algum motivo mais emocional do que arquitetônico, vai se tornando pouco familiar. Tão estrangeira que não importa se ela te oferece mais possibilidades ou se as ruas se tornaram mais convidativas. Existe algo que não está mais ali, algo que se perdeu irremediavelmente e gera uma espécie de desconexão entre sujeito e lugar. Você não pertence mais àquele ambiente carregado de memórias.

Essa espécie de “nostalgia frustrante” que todos nós encontramos ao retornar para essa “cidade hipotética”, é o tecido do terceiro disco de estúdio de Jenny Lewis, The Voyager.

Na faixa de abertura, Head Underwater, a moça descreve o sentimento com agudeza, mas levando-o além do aspecto “físico”: “I never thought I would ever be here/ Looking out my life as if there was no there therePor esses versos, é perceptível que a cantora se sente deslocada de si mesma e não encontra qualquer conexão com as “Jennys do passado” – como se ela tivesse se mudado de dentro do próprio corpo. E, assim como as situações de viagem descritas, Head Underwater leva tempo até te mostrar os sentimentos que deseja evocar porque propõe um começo doce, onde existe alguma beleza em redescobrir. Dona de uma batida descontraída, com sintetizadores reluzentes que transmitem a sensação de que Lewis está realmente submersa enquanto canta (o que, aliás, ela faz de um modo bastante assertivo e brusco), o instrumental da faixa transmite algum otimismo em seu início. Porque pense bem: você acabou de chegar. Ainda é cedo para dizer que algo se perdeu, mesmo que o estranhamento seja imediato. E, então, você segue explorando e descobrindo – assim como o instrumental de Head… faz ao crescer para algo inegavelmente influenciado pelo pós-punk (especialmente por meio da guitarra sombria) e estabelece uma espécie de equilíbrio entre empolgação e tristeza.

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Cena: Ela

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Aquelas cinco inglesinhas sábias, num longínquo 1996, disseram com bastante propriedade e munidas de uma razão quase inquestionável que “if you wanna be my lover, you gotta get with my friends”.

E, apesar do tom adolescente, elas acertaram na mosca sobre um aspecto importante em relacionamentos: amigos e cônjuges precisam sim se entender porque, afinal, são duas partes importantes da sua vida e, quando uma se for, a outra vai continuar ali, catando os seus caquinhos e te ajudando a cola-los, com a maior paciência do mundo.

Então, nervosismo é natural quando você vai apresentar aquela pessoa nova, que aos seus olhos já é tão maravilhosa, para as outras pessoas maravilhosas que chegaram antes na sua vida. “E se eles não se gostarem? E se sair faíscas e, eventualmente, eu tiver que escolher entre conviver mais com um do que com o outro?”. Pode parecer um clichê, mas eu sempre digo que clichês se tornaram o que são por uma razão: existe algo de verdadeiro em cada um deles (talvez não em “all you need is love”, mas vocês entenderam).

E em Ela (Her, 2013) tanto Theodore (Joaquin Phoenix) e Samantha (Scarlett Johanson), o casal de protagonistas do longa, quanto os amigos do moço parecem ter consciência da importância desse convívio porque esforços são feitos. Mesmo que, para os outros, toda a situação em que Theodore apresenta sua namorada para os seus amigos seja um pouco, hm, estranha. Porque, afinal, está todo mundo ali, fisicamente presente e interagindo, enquanto Samantha é “só um telefone”. Uma coisa imaterial. Algo que teria tudo para causar um desconforto maior, mas que nunca causa porque possui significado imenso para Theodore e acaba representando mais do que uma espécie de namorada virtual – o que os amigos são rápidos em perceber.

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Karen O – Crush Songs

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Acho que Karen O é uma das vocalistas atuais que mais sabe incendiar uma plateia e tocar o terror quando está no palco e esse lado da moça é fascinante. Mas há algo de ainda mais magnético na cantora quando ela dá uma atenuada em seu tom e parece querer cantar segredinhos, confissões doces que reforçam seu lado mais frágil – como demonstrou com seu trabalho nas trilhas de Onde Vivem os Monstros (Where The Wild Things Are, 2009) ou Ela (Her, 2013).

E, em seu momento atual, a cantora aparece mais vulnerável que nunca. No seu primeiro disco solo, Crush Songs, Karen resgata um período de sua vida que, segundo a própria, foi cheio de “crushes”: no caso, corações partidos, desapontamentos, mas também o outro lado, de encontrar um alicerce comum em alguém.  Uma verdadeira “cruzada de amor”, nas palavras da artista.

Por essa definição, dá pra imaginar que o Crush Songs é bem agridoce. Reforçando essa impressão, há o fato de que as faixass tem um ar de que saíram de uma fita cassete caseira. A gravação é meio abafada, com ruídos, e isso expande a impressão de que Karen O está falando sobre algo íntimo, que vem do coração: é como se a moça estivesse gravando a fitinha para alguém especial ouvir, dentro de seu quarto, com um violão e muito sentimento.

E a mistura de tudo isso faz com que a gente se sinta estranhamente familiarizado com as músicas, mesmo que as estejamos ouvindo pela primeira vez. E uma vez que você vai acompanhando as letras, entoadas pela voz lamuriosa de Karen, essa sensação vai crescendo ainda mais. Diretas e simples, as músicas falam sem rodeios sobre diversas coisas: a sensação de encontrar uma pessoa que difere de todas as outras (Oo, que ganhou clipe fofo estrelado por Elle Fanning); o outro lado, de amaldiçoar o amor pelas dores que ele traz (Rapt); a saudade de alguém que partiu e está longe demais para poder visitar (NYC); e até noite insones, passadas revirando coisas não ditas e relações quebradas (Day Go By).

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As Sombras de Longbourn, Jo Baker

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Orgulho e Preconceito, a obra máxima de Jane Austen, fascina pela ótima mistura de romance e críticas à sociedade burguesa da Inglaterra no século XVII.

A escritora Jo Baker, fã confessa do livro, se sentia atraída demais por esses dois aspectos do romance, mas não ficava plenamente satisfeita em conhecer apenas o ponto de vista dos mais abastados. Imaginava como seria a vida dos empregados da família e qual a sensação que eles teriam em viver num mundo tão repleto de amores, bailes, cortejos e dinheiro sem estar, de fato, participando de tudo isso.

Decidida a ir mais fundo nas observações cotidianas de O&P e trazer ainda uma carga emocional diferente, Jo escreveu As Sombras de Longbourn, onde dá voz a essas figuras invisíveis nas páginas de Austen. Assim, em Longbourn, os amores estão presente de forma muito mais dolorida e a autora, além de expor o dia a dia dos “menos favorecidos”, mostra um lado dos ricos que não é nada glamuroso e conta falhas mais graves, com erros que vão além de não encontrar o vestido perfeito para uma festa de amigos. E, para isso, ela  coloca Sarah, uma das empregadas dos Bennet, como protagonista.

Orfã,  a moça trabalha na casa junto com sua irmã, Polly, e o Sr e a Sra Hill, dois funcionários que cuidam do lugar há mais tempo. A personagem observa a vida dos patrões perguntando-se como a sua própria existência seria se ela não fosse apenas uma mera serviçal. Quando James, um novo auxiliar chega à fazenda – com um passado misterioso de lambuja -, ela percebe a dinâmica das coisas mudando, com segredos vindo à tona e algumas vontades que guardava pra si, florescem. Mas não é fácil fazer esses desejos acontecerem quando sua vida é, basicamente, viver a vida dos outros.

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Belle & Sebastian – Write About Love

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Se você já assistiu a Alta Fidelidade (High Fidelity, 2000), com certeza se lembra que, durante boa parte do filme, Rob (John Cusack) está vivendo um dia ruim.

Em um desses dias, porém, ele entra na sua loja de discos e uma faixa melancólica está tocando de fundo, despertando afinidade imediata. Ele, então, pergunta ao seu empregado do que se trata e, em resposta, Dick (Jack Black) lhe diz que é “O disco novo do Belle & Sebastian”, ganhando a aprovação de Rob (ainda que a reação se pareça um pouco com indiferença) porque, afinal, se trata de “música triste para gente triste”.

Esse momento de Alta Fidelidade foi a minha apresentação ao Belle & Sebastian. E quando dizem por aí que não existe publicidade ruim, isso é questionável. Porque, para mim, foi bastante natural levar alguns anos para me interessar por aquela faixa tristonha, vinda de um grupo cuja acessibilidade não era das mais fáceis na época – especialmente porque, tradicionalmente, a imagem da banda pintada por aí é exatamente a que Rob Flemming diz na cena em questão e ela não está completamente errada.

Mas também não é uma verdade absoluta. De Tigermilk até Write About Love, boa parte do repertório do B&S é cheio de ternura, energia e alegria. Flertando com uma atmosfera bastante açucarada do ponto de vista sonoro, eles conseguem dizer verdades duras de um jeito fofo, que te faz quase não perceber a acidez ou ceticismo de suas canções.  E no supramencionado Write About Love isso se torna tão claro que o disco tem o poder de tornar o seu dia mais ensolarado mesmo quando a banda está falando sobre ter conseguido fazer parte do mundo real, mas ainda não estar vivendo na realidade propriamente dita. Parecendo menos melancólico que em outros momentos de sua carreira, mas ainda tratando de insatisfação, o Belle & Sebastian traz convidados que acrescentam a atmosfera do que desejam realizar e fisga quem escuta desde a sua abertura, I Didn’t See It Coming.

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Top 5: Filmes sobre primeiro amor

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Se a solidão nos fez roqueiras, garanto à você que o responsável não foi o cinema, mas a vida.

Porque por mais que haja filmes tristes a torto e a direito, tenho a sensação de que o volume de produções otimistas e românticas sempre é maior.

E são esses longas, que pregam, quase sempre, a ideia de que o amor é algo que acontece só uma vez na vida, os responsáveis por formar em nosso imaginário e em nosso íntimo (mesmo que a gente negue, mesmo que sejamos emos, góticas e tenhamos uma opinião), a ideia de que, ahhhh, suspiro, o amor é aquilo ali.

Deixando o cinismo de lado, quando a gente assiste a um bom filme sobre o tema, é muito fácil querer tudo aquilo. E também é muito, muito, muito fácil rememorar experiências parecidas. Então, esse misto de anseio e lembrança, vira imagem de vontade e também um espelho – nos fisgando de pronto e nos fazendo sorrir.

E é sobre isso que a gente fala hoje.

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Drops Playlist: Namorinho de Portão

Drops Playlist: Namorinho de Portão

Namorar no portão. Comer biscoito. Tomar café, cuidar do priminho, do irmão. É, eu sei. A gente conhece essa onda e já saltou dessa canoa há tempos.

Mas, fala sério e fala pra mim, não é legal demais quando a gente se depara, ao acaso, com músicas, melodias e versos que resgatam esse tipo de pureza? Não sei vocês, mas eu bato os pés mesmo no ritmo das canções e, se não tiver ninguém olhando, canto junto com o entusiasmo – mesmo que no momento seguinte eu me arrependa e me ache um tanto quanto ridículo. Tanto faz.

Porque, cá entre nós, as músicas desse tipo nem são tão irreais assim. Porque quando a gente tem dez, doze anos de idade, o que a gente sente é isso. E é isso que a gente te mostra agora.

Little Joy – Brand New Start: é sobre aquela sensação gostosa presente em começos. A gente sabe que não tá lidando com o primeiro amor (longe disso), mas entende que o que vale é o presente e que o resto… Ah, o resto tanto faz.

Selton – Drunken Sunshine: tá aí pra provar que o que vem depois da festa é tão bom quanto a festa em si. Aliás, o que vem depois da festa é também uma festa.

Belle & Sebastian – Write About Love: tem uma melodia tão bonitinha, mas tão bonitinha, que, se bobear, a gente nem nota que a letra (assim como a vida) é horrível.

Tiê – Se Enamora: acho que se a gente fechar os olhos consegue enxergar aquele bilhetinho com coração sendo passado de carteira em carteira no colégio.

Mallu Magalhães – Olha só, Moreno: “vê se olha com carinho pro nosso amor” e vê se, por favor, escuta essa aqui sem cinismo, vai.

Karen O – The Moon Song: sobre estar tão longe e ainda assim estar junto. Ou quase.

Meiko – I’m In Love: reconstruir não é tarefa das mais fáceis. E amar, depois de se estar quebrado, é mais difícil ainda, mas…

The Temptations – My Girl: fase de ouro da Motown e também da vida de boa parte da geração que hoje tem vinte e poucos… Quem nunca cantou essa música por horas e dias depois de assistir um certo filme na Sessão da Tarde?

Ouça no Youtube.

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10 Fatos Sobre: Buffy, A Caça-Vampiros

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Hoje, quando a gente pensa na junção vampiros + público jovem, o que vem à nossa cabeça não são obras muito boas, não é mesmo?

Mas nos anos 90 as coisas não eram tão ruins assim – pelo menos no que diz respeito às séries de TV. O maior exemplo disso é Buffy, A Caça-Vampiros, seriado que contava com um ritmo irresistível e um faro nerd apurado que conquistou o mundo todo ao longo de seus (vários) anos de exibição.

Também, pudera. Espertinho demais, o programa sabia unir aventura ao seu lado mais humano, botando no mesmo caldeirão um tipo de humor negro que fazia rir sem esforço, dramas que geravam identificação e empatia pelos personagens em cena, mistérios que cabiam em uma história como essa (porque, mesmo com tudo, Buffy ainda era sobre vampiros).

Buffy, A Caça-Vampiros deixou de ser exibida em 2003, mas tornou-se referência pop até os dias de hoje, sendo citada em diversos outros programas, livros, filmes, e ainda fixa no imaginário dos fãs que não esquecem as desventuras dessa loirinha fogo-na-roupa.

A gente também não deixa a série de lado, não, e pra relembra-la, trazemos a seguir 10 Fatos Sobre: Buffy, A Caça-Vampiros.

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Kimbra – The Golden Echo

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Há artistas que tem essa habilidade de criar músicas tão vivas e cheias de calor que mudam seu astral, fazem algo por seu dia. Te preenchem de empolgação. Kimbra está nessa categoria.

As canções da moça transportam a gente pra um mundinho paralelo, que meio surreal, vai se desdobrando até fazer você sentir que está andando em “ruas” por vezes bem mais coloridas do que nosso dia a dia oferece.

Se no seu primeiro disco, Vows, a neozelandesa parecia fascinada com as possibilidades sonoras e líricas que tinha em suas mãos – misturando tudo sem nenhum critério, com um encanto quase infantil, mas de modo eficaz -, agora ela parece entender que além da esquizofrenia criativa, essa “elevação” do ouvinte é sua maior missão, e o que lhe dá prazer.

Assim, criou seu novo disco, The Golden Echo. O título, que remete à flor Narcissus Golden Echo, traz por tabela a referência ao mito de Narciso – encarnado por Kimbra na capa do compacto. O personagem, figura conhecida da mitologia grega, observa sua aparência perfeita nas águas de um rio e, fascinado pelo que vê, se pergunta: “Como fazer a beleza durar?”. A cantora abraça essa dúvida, mas ao invés de olhar para si mesma, justifica que a dúvida maior é: “como fazer a beleza durar… e ser compartilhada?”.

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3 Momentos: Alicia Silverstone

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Verdade seja dita, Alicia Silverstone nunca, nunquinha, foi uma grande atriz.

Não que ela fosse péssima ou coisa assim, mas ela era, assim como tantas outras, só correta, só ok. Mas, diferentemente de seus pares, ela aconteceu e fez barulho porque soube usar tudo o que tinha de bom a seu favor. Com um punhado de boas escolhas, uma ajudinha da MTV, um tanto de sorte e muito carisma, Alicia personificou o espírito dos adolescentes de toda uma década e deu cara a uma espécie de rebeldia – que mesmo parecendo fabricada aos olhos mais cínicos, era genuína o suficiente para a maioria.

Atuando desde cedo, a loira deu sinais que seria grande quando encarnou, aos dezessete anos, uma espécie de Lolita ultra-perversa, que aparentava ter uns quatorze ou quinze, em Paixão Sem Limite (The Crush, 1993). O ar enfezado, combinado a inocência, gerou um certo buzz (ela até ganhou prêmio de Melhor Performance de Estreia no MTV Movie Awards pelo papel). Nos anos seguintes, o que era promessa se cumpriu. E Alicia Silverstone virou, enfim, sensação.

Mesmo que algumas escolhas (muito) erradas e uma ode de azar tenha prejudicado sua carreira para sempre (ela foi praticamente esquecida no fim dos anos noventa e todo grande projeto que entrava, acabava afundando), durante seus anos de ouro Silverstone foi um ideal de estilo, beleza e atitude.

E nós mostramos o porquê agora.

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Oasis – (What’s The Story) Morning Glory?

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Muitas pessoas insistem em associar o Oasis somente a arrogância de seus integrantes ou a quantidade de socos que Liam e Noel Gallagher trocaram ao longo dos anos.

Embora afirmar qualquer uma dessas coisas não seja mentiroso, já que os caras tinham egos tão grandes quanto os seus talentos e curtiam se esbofetear, ao fazer isso, muitas pessoas desconsideram a grandeza do trabalho do Oasis e rotulam a banda de acordo com a personalidade dos irmãos Gallagher, não por sua obra – de qualidade gigantesca, aliás.

Porque o Oasis, lá nos anos 90, não tinha só a fome por estrelato que a maioria dos novatos têm: os rapazes tinham também aquilo que era necessário para, de fato, conquistar a fama e ser tão grandes quanto, nas suas cabeças, eles sempre foram. E embora a relação tempestuosa de Liam e Noel estivesse no centro das coisas que moviam a banda – e aqui eu preciso lembrar a vocês que rock e conflito sempre trabalharam bem juntos, vide Mick Jagger e Keith Richards –, a instabilidade não era o único motor do trabalho do Oasis. Havia ali rebeldia, atitude e uma revelação interessante dos sonhos (decadentes) da classe trabalhadora britânica, que passou horas demais assistindo a The Kids Are Alright, “aquele-filme-do-The-Who”, e decidiu que podia fazer igual.

E em Definitely Maybe, o primeiro compacto da banda, isso se torna claro pelo desejo dos caras de transcender aquilo que é mundano: Rock’n’Roll Star, Supersonic, Live Forever são alguns dos títulos das músicas do disco que, cheio de melodias crescentes e um tom sarcástico, já deixou bem claro que o Oasis tinha vindo para ficar e serviu como um bom cartão de visitas para o álbum que, além de funcionar como a continuidade natural (e incrivelmente competente) do seu debut, é considerado até hoje um dos melhores da banda: (What’s The Story) Morning Glory?.

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Segundas Intenções

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Lascívia. Chantagens elaboradas. Reputações sendo destruídas. Comportamentos deploráveis. Sexo, sexo e sexo. Algumas mentiras. E videotapes. Todas essas coisas associadas ao elenco teen dos sonhos e um roteiro que, provavelmente, fez alguns pais exclamarem: “Ah, a juventude de hoje em dia!”.

Transportando o plot de As Ligações Perigosas (Dangerous Liassons, 1988) para uma Manhattan decadente, habitada por mauricinhos e patricinhas indecentemente ricos, que frequentam uma escola preparatória bastante exigente e valorizam ideais de perfeição, Roger Kumble, o diretor e roteirista de Segundas Intenções (Cruel Intentions, 1999), conseguiu manter a ideia central da história original, mas, ao mesmo tempo, dar a ela uma cara inevitavelmente “da sua época”. Tão da sua época que acabou caindo no gosto de 11 entre 10 adolescentes naquele 1999.

Isso porque há certo frisson em assistir um retrato tão mundano e pouco usual da juventude americana. Enquanto outros filmes adolescentes investiam na fórmula, hoje batida, de um mocinho e uma mocinha que se apaixonam apesar de todas as suas diferenças e decidem, nos 45 do segundo tempo, viver esse romance, Segundas Intenções é movido por uma aposta cruel envolvendo destruir uma jovem bastante inocente – e de comportamento infantilizado – para se vingar de outra pessoa. E não é que não exista ali aquele amor arrebatador demais para os 17 anos de seus protagonistas, mas ele parece presente para reforçar a ideia de decadência e (quase) hedonismo presente no roteiro do filme. Ele parece mais um “artigo de luxo” que Sebastian (Ryan Philippe) precisa ter para ser considerado alguém que está “acima” de tudo o que acontece a seu redor.

Então, mesmo quando surge a faceta mais redentora e sensível do longa, algum acontecimento destaca a absoluta falta de moralidade de seus personagens e torna claro que o comportamento deles será vil até o fim, até as últimas consequências – e o desfecho acentua isso ao transformar “as vítimas” em pessoas que tramam e destroem seus inimigos, ainda que exista a tentativa de dar ao ataque uma cara de “justiça sendo feita”. Não se enganem: o que assistimos de Cecile (Selma Blair) e Annette (Reese Whiterspoon) não tem a ver com justiça. Tem a ver com vingança pura e simples. Tem a ver com vencer o mestre em seu jogo e usando as mesmas ferramentas que ele usaria: a expressão facial mais inocente que você conseguir atingir, um ar de “estou fazendo o bem expondo para vocês quem essa pessoa é de verdade” e a capacidade de sair por cima, de não ter a sua reputação manchada pelos eventos.

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Drops Playlist: 90’s YEAH!

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Jaquetas jeans. Camisa de flanela. Titanic. Banheira do Gugu. Matrix. Grunge. Pulp Fiction. Madonna-Pós-Cabala. Blossom. Balas Icekiss™.

Se você viveu os anos 90, aposto, não esqueceu. A moda maravilhosa, os artistas raivosos, e a efervescência cultural de pessoas que desejavam se livrar dos excessos da década anterior e construir uma identidade mais simples, fizeram dos anos noventa uma espécie de ode a vida, frustrações e otimismo.

Nesse cenário, discos que captavam o espírito de gerações surgiram, one-hit-wonders maravilhosos sumiram, o pop como conhecemos começou a se desenhar, e movimentos inteiros nasceram e morreram. O que sobrou, quinze anos depois, foram resquícios que se notam ainda nos dias de hoje em homenagens espertas, canções que pararam no tempo, e um revival que não tem cheiro e nem gosto de naftalina. Duvida? Então dá play!

Elastica – Connection: bons riffs de guitarra, vocais sensuais e um tipo de fúria irresistível. É, baby, os anos noventa chegaram.

The Ting Tings – We Started Nothing: a autoconsciência de que não se começou nada, e que se está no meio é legal e mágico demais para que deixássemos passar batido.

Kiesza – Hideaway: o melhor clipe e talvez a melhor música dos anos noventa que foram produzidos em 2014.

Spin Doctors – Two Princess: daquelas que a gente até esquece que conhece, mas que quando toca nos faz vibrar, cantar e sorrir. E lembrar.

Meredith Brooks – Bitch: o primeiro verso, tão sincero, o refrão, tão verdadeiro. Levanta a Ice, fecha os olhos e junte-se ao coro: é sim a nossa música (e por ‘nossa’, incluo todos que já acordaram odiando o mundo alguma vez na vida).

Spice Girls – Wannabe: pra todo mundo que wanna zig-a-zig-ah!

Lady GaGa e R. Kelly – Do What You Want: que refrão é esse?! Pra encher os pulmões e cantar com força.

HAIM – Forever: tenho pra mim que as meninas do HAIM cresceram trancadas num apartamento enquanto assistiam Blossom, O Quinteto e Felicity na TV, sonhando com o dia que viveriam todos aqueles dramas. Só isso explica elas, tão jovens, terem entendido e capturado tão bem as cores de uma época.

Madonna – Sky Fits Heaven: quem foi que falou que para respirar é preciso parar tudo?

Ouça o drops playlist inteirinho no Youtube. 

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Adore Delano – Till Death Do Us Party

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Não é difícil ser conquistado pelas participantes de RuPaul’s Drag Race, e na sexta temporada, uma das mais carismáticas foi, sem dúvidas, Adore Delano. Fofa demais e com uma certa insolência que cativa, a performer mostrou ter uma empolgação quase inabalável e um charme natural que a salvava mesmo nos momentos em que parecia perdida nas provas executadas no programa.

Esses mesmos atributos se fazem notar também no seu primeiro CD, Till Death Do Us Party. Escancaradamente pop chiclete e honesto em sua intenção – fazer a gente dançar e se divertir, sem maiores mistérios -, o álbum às vezes sofre com um tom meio genérico, que o torna irregular como a trajetória de Adore no programa. Mas o empenho da artista em tentar mostrar como seu mundo é empolgante, além da energia safadinha e brincalhona que emana (que é sua e não parece emprestada de outro artista), fazem com que o disquinho permaneça pulsando mesmo nos momentos mais fracos. E chama a atenção para o que realmente vale a pena nele.

Exposto no título, o amor pela vida festeira é narrado na maior parte das gravações. E com ele, tudo o que vem de lambuja: sexo, bebedeiras, aquelas paixonites fulminantes que duram uma noite só; e ainda certa obscuridade, caracterizada por dores de cotovelo que surgem de rejeições e affairs frustrados.

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