Amor Sem Pecado

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Antes de assistir Amor Sem Pecado (Adore, 2013), você precisa deixar o conservadorismo em casa. Precisa esquecer também todos os conceitos que você construiu sobre o que é aceitável e inaceitável em termos de relacionamento. Porque nesse filme você vai encontrar uma coisa que rompe completamente com tudo o que é ortodoxo (ou que ensinaram para a gente a tratar como ortodoxo). Portanto, é preciso que você desligue o seus julgamentos antes de entrar na sala de cinema ou você corre o risco de cometer alguns dos enganos dos vários detratores do filme.

É fato que cabem diversas críticas ao longa, especialmente no que tange a tentativa de Anne Fontaine, a diretora, de tentar fazer com que ele não fosse tão psicológico e reflexivo (para citar as palavras da própria nessa entrevista aqui, onde ela explica o porquê de ter decidido filmar fora da França, seu país de origem). Mas uma das retaliações mais comuns diz respeito à beleza física dos atores. Há quem questione se Fontaine teria filmado Amor Sem Pecado da maneira como ele é caso as suas protagonistas fossem Barbra Streisand e Kathy Bathes (é, bem assim mesmo, com nomes e tudo) e se os filhos das personagens não fossem surfistas de corpo bem desenhado.

Observar o longa por essa perspectiva é tão reducionista que talvez não merecesse nem uma resposta. Mas, ao mesmo tempo, a crítica feita passa tão longe daquilo que deveria ser o ponto principal que não dá para deixar o comentário passar batido.

Primeiramente porque os corpos, apesar de estampados no pôster, raramente são o foco. Há alguns instantes dedicados a observação deles – tanto por parte de Lil (Naomi Watts) e Roz (Robin Wright) quanto por parte de Ian (Xavier Samuel) e Tom (James Frecheville), os filhos delas -, como não poderia deixar de ser num filme que tem o sexo como um de seus motores. Mas as cenas em que os dois casais estão juntos são filmadas de um jeito sutil e bonito. De um jeito que nos mostra que Anne Fontaine estava mais interessada em destacar sensações e nuances do relacionamento das protagonistas do que em expor duas beldades (ou quatro, se considerarmos que são dois casais) transando.

Segundo, porque o ponto principal nunca foi o fato de que duas amigas se interessaram pelo filho uma da outra e decidiram se permitir o relacionamento. Amor Sem Pecado é antes uma reflexão da fluidez dos laços emocionais quando as convenções sociais são postas de lado. Lil e Roz são amigas de longa data e criaram os seus filhos juntas. Em diversas passagens do longa, devido a intimidade que compartilham, a sexualidade das personagens é questionada por terceiros. Mas o que Anne Fontaine parece querer mostrar com um laço tão estreito é que intimidade emocional transcende a mera sexualidade e, conforme o filme avança, isso só se confirma.

A amizade das duas não se abala nem quando elas descobrem, de um jeito bastante abrupto, o que está acontecendo. Elas decidem juntas (e sem se importar com a opinião de Tom e Ian) quando o relacionamento continua e quando termina. E, por fim, o sexo não tem qualquer papel modificador na visão que tem uma da outra e de seus filhos, mas antes serve para ajudar a criar a mesma intimidade que Lil e Roz compartilhavam (e que os rapazes, enquanto melhores amigos, também tinham) para o grupo. Dessa forma, a progressão do vínculo, que acaba criando um universo próprio para os quatro e bastante protegido de qualquer intervenção, soa natural, como se eles devessem compartilhar daquela intimidade para se descobrir.

Naomi Watts e Robin Wright estão luminosas e confortáveis na pele de suas protagonistas. Elas sustentam toda a ideia de Amor Sem Pecado com as suas atuações ora contidas, ora cheias de emoção. E a maneira como as atrizes constroem as suas personagens, bem como a consciência que Lil e Roz demonstram dos seus atributos, é o que justifica a atração dos rapazes por mulheres tão mais velhas.

Fontaine, se aproveitando da atmosfera de paraíso do cenário (o filme se passa quase todo numa praia na Austrália), consegue captar a sensualidade de seus personagens por meio de figurinos que são despojados, mas reveladores. Os corpos são exibidos com uma glória inconsciente, que casa perfeitamente com a exuberância da paisagem e a ideia de um isolamento acolhedor revelada pelas locações. A serenidade do local onde o longa se passa faz parecer que o quarteto vive fora do mundo e isso se confirma cada vez que temos a presença de um intruso, que não só torna o ambiente algo menos harmônico como também torna os sentimentos dos protagonistas algo turvo.

Amor Sem Pecado, como um todo, é um longa subversivo. A cada momento que Lil, Roz, Ian ou Tom decidem fazer a coisa certa, que segue as convenções sociais, a decisão acarreta danos muito maiores a longo prazo. Isso soa como uma provocação ao público, como uma maneira de fazer a gente pensar até que ponto aqueles relacionamentos são errados só porque não seguem uma lógica com a qual estamos acostumados.

Ao fim, a gente não encontra resposta para esse questionamento. Ou talvez encontre, mas a aceitação demanda desconstrução e isso pode ser um dos motivos para as numerosas críticas negativas a Amor Sem Pecado. Porque o filme se desvia do óbvio em seu desfecho (que seria tornar os personagens quebrados e destruir de vez o vínculo entre eles) para ir em direção a algo que nos dá uma impressão cíclica. Uma ideia de que não importa quantos desvios aquela história sofresse, ela acabaria exatamente no mesmo ponto.

Porque conexões fortes como as dos personagens, por mais que não se veja todo dia, simplesmente acontecem e não podem ser combatidas por vontade de se encaixar num modelo.

Adore, de Anne Fontaine, 2013.
Amor Sem Pecado. Com: Naomi Watts, Robin Wright, Samuel Xavier, James Frecheville, Ben Mandelsohn, Sophie Lowe e Jessica Tovey.

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